O sismo de Lisboa de 1531 foi uma das maiores catástrofes naturais da história de Portugal e um dos terramotos mais mortíferos a atingir a capital antes do célebre abalo de 1755. Ocorreu na madrugada de 26 de janeiro de 1531 e provocou destruição maciça, um tsunami no estuário do Tejo e um número de vítimas estimado em cerca de 30 mil mortos, correspondendo a uma parte significativa da população de Lisboa da época.
Apesar da sua dimensão trágica, este desastre permaneceu durante séculos relativamente esquecido, ofuscado pelo terramoto de 1755, que marcou profundamente a memória coletiva europeia. No entanto, o abalo sísmico de 1531 constitui um episódio decisivo na história urbana e social de Lisboa e revela a vulnerabilidade sísmica do território português desde a Idade Moderna.
O terramoto ocorreu entre as quatro e as cinco horas da madrugada de 26 de janeiro de 1531, quando grande parte da população dormia. A magnitude estimada situa-se entre 6,4 e 7,1 na escala de magnitude de momento, o que corresponde a um sismo forte, com capacidade para provocar destruição generalizada em zonas urbanas densamente construídas. Acredita-se que tenha sido causado pela atividade tectónica da zona de falhas do vale inferior do Tejo, uma região historicamente sísmica que também esteve na origem de outros abalos relevantes, como o de 1909 em Benavente.
Antes do grande abalo registaram-se dois sismos precursores, em 2 e 7 de janeiro do mesmo ano, que alarmaram a população e indicaram a instabilidade geológica da região. Na madrugada de 26 de janeiro, a terra tremeu violentamente em vários momentos, causando pânico imediato e destruição em larga escala. As estimativas apontam que cerca de um terço das edificações de Lisboa foram destruídas ou severamente danificadas, sobretudo na zona baixa da cidade.
Entre os edifícios afetados destacavam-se importantes construções religiosas e palacianas, como o Paço da Alcáçova e a Igreja de São João, praticamente arrasadas pelo abalo. Na área do Rossio e noutras zonas centrais ocorreram desmoronamentos de igrejas e casas, soterrando habitantes e causando centenas de mortes imediatas. No choque inicial terão morrido cerca de mil pessoas, mas o número total de vítimas aumentou rapidamente devido a desabamentos, ferimentos, inundações e falta de assistência.
Um dos fenómenos mais dramáticos associados ao terramoto foi o comportamento anómalo das águas do rio Tejo. Relatos contemporâneos referem que o nível do rio recuou temporariamente, deixando o leito exposto, e regressou depois de forma violenta, provocando um tsunami que atingiu a zona ribeirinha. Embarcações foram atiradas contra as rochas, enquanto outras ficaram encalhadas quando as águas recuaram, confirmando a ocorrência de um maremoto associado ao sismo.
Os efeitos do terramoto não se limitaram à capital. Várias localidades do vale do Tejo e do Ribatejo, como Santarém, Almeirim, Azambuja e Vila Franca de Xira, sofreram danos consideráveis. O abalo foi sentido em grande parte do território português, incluindo regiões do Alentejo e da Beira Litoral, e causou destruição parcial em diversos núcleos urbanos. Algumas fontes indicam ainda danos em áreas do sul de Espanha, o que evidencia a extensão geográfica do fenómeno.
O número de vítimas mortais é difícil de determinar com precisão, mas a estimativa mais consensual ronda as 30 mil pessoas, o que representaria cerca de um quinto da população de Lisboa no século XVI. Este valor coloca o sismo de 1531 entre os desastres naturais mais mortíferos da história portuguesa, apenas superado pelo terramoto de 1755 em impacto global.
Após o abalo principal, sucederam-se réplicas que mantiveram a população em permanente estado de medo. O pânico coletivo manifestou-se através de procissões, sermões e manifestações religiosas, interpretando o desastre como um castigo divino. A sociedade portuguesa da época, profundamente marcada pela religiosidade, reagiu com penitências e doações, procurando explicações espirituais para a tragédia.
Apesar da sua magnitude, o sismo de 1531 foi relativamente pouco documentado e, durante séculos, permaneceu em segundo plano na historiografia e na memória coletiva. Só no século XX, com a redescoberta de fontes contemporâneas, foi possível compreender melhor a dimensão real do desastre. A escassez de registos deve-se em parte à perda de documentos e à menor capacidade administrativa e científica de registo sistemático no século XVI.
O terramoto de 1531 constitui um marco fundamental na história sísmica de Portugal, demonstrando a recorrência de grandes abalos na região de Lisboa e no vale do Tejo. Este evento, juntamente com os sismos de 1755 e 1909, confirma a existência de falhas geológicas ativas capazes de gerar movimentos sísmicos destrutivos. Ao mesmo tempo, revela a vulnerabilidade das cidades pré-modernas a catástrofes naturais e a forma como a sociedade portuguesa interpretava e reagia a fenómenos extremos.
Quase cinco séculos depois, o sismo de Lisboa de 1531 permanece como um dos episódios mais dramáticos da história nacional, recordando a fragilidade das sociedades perante a força da natureza e a importância de estudar o passado para compreender os riscos sísmicos do presente.

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