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Sismo de Lisboa de 1356: o grande terramoto medieval que abalou Portugal antes de 1755

Muito antes do devastador terramoto de 1755, Lisboa já havia experimentado um dos mais poderosos terramotos da sua história. O sismo de 1356 constitui um dos eventos sísmicos mais intensos registados na Península Ibérica durante a Idade Média e permanece, ainda hoje, um episódio crucial para compreender a sismicidade histórica portuguesa e o risco sísmico na região atlântica.

O terramoto ocorreu ao final do dia de 24 de agosto de 1356, uma quarta-feira e dia de São Bartolomeu, e terá durado cerca de quinze minutos, um período extraordinariamente longo para um evento desta natureza. Os relatos históricos indicam que foi sentido não apenas em Lisboa, mas também em várias regiões de Portugal e da Península Ibérica, com efeitos que chegaram a centenas de quilómetros de distância.

A magnitude estimada do sismo situa-se em torno de 8,5, valor extremamente elevado e comparável a grandes terramotos oceânicos. Embora os dados científicos sejam naturalmente aproximados — uma vez que não existiam instrumentos de medição na época — a análise de danos estruturais e descrições documentais permite enquadrar o evento como um dos mais violentos registados em território português antes da era moderna.

Os danos materiais foram significativos e espalharam-se por várias cidades. Em Lisboa, diversas construções ruíram, incluindo estruturas essenciais para o abastecimento alimentar da cidade, como os quatro grandes fornos públicos onde se cozia pão. O tremor foi suficientemente forte para provocar estragos fora de Portugal, chegando a rachar sinos e estruturas metálicas em Sevilha, Espanha.

As fontes medievais descrevem um cenário de pânico generalizado. O abalo fez soar campanários espontaneamente e levou habitantes a fugir de edifícios sólidos por receio de colapso. Casas, torres e castelos sofreram fissuras ou ruíram parcialmente, e as crónicas referem que o tremor foi sentido “por todas as partes do mundo”, expressão típica da época para descrever a extensão regional do fenómeno.

Os efeitos não se limitaram ao momento do sismo principal. Réplicas continuaram a ser sentidas durante cerca de um ano, mantendo a população em permanente estado de ansiedade e instabilidade. Este padrão prolongado de réplicas é coerente com a elevada magnitude estimada e com a provável origem tectónica profunda do fenómeno.

A origem geológica mais aceite para o terramoto situa-se na região da Crista de Gorringe, a sudoeste do cabo de São Vicente, uma zona tectonicamente ativa no Atlântico que também terá sido responsável por outros grandes sismos que afetaram Portugal ao longo dos séculos. Esta área resulta da interação complexa entre as placas tectónicas africana e euroasiática e é considerada a principal fonte dos maiores terramotos históricos que atingiram Lisboa.

A intensidade do abalo foi suficiente para provocar danos em várias localidades além da capital, incluindo Alcobaça, Setúbal, Silves e outras regiões do Algarve. A amplitude geográfica dos estragos indica que se tratou de um evento de grande energia sísmica, provavelmente com epicentro no oceano, mas com efeitos amplificados nas zonas urbanas costeiras e ribeirinhas.

Apesar da sua violência, o sismo de 1356 acabou por ser parcialmente esquecido na memória coletiva portuguesa. A escassez de registos sistemáticos e a ausência de um impacto cultural comparável ao de 1755 contribuíram para a sua relativa obscuridade histórica. Apenas no século XX, a descoberta de uma inscrição alusiva ao evento numa parede da Torre do Paço, no Castelo de São Jorge, ajudou a reavivar o interesse académico e público por este episódio.

Os historiadores e sismólogos consideram hoje o terramoto de 1356 um marco fundamental para compreender a recorrência de grandes sismos na região de Lisboa. Antes do famoso desastre de 1755, vários abalos significativos tinham já atingido a cidade entre os séculos XIV e XVI, demonstrando que o risco sísmico na área não é um fenómeno isolado, mas parte de um padrão histórico de longa duração.

O estudo deste terramoto medieval permite ainda refletir sobre a vulnerabilidade das cidades históricas face a eventos naturais extremos. Em plena Idade Média, a ausência de técnicas de construção anti-sísmica e de conhecimento científico adequado tornava as populações particularmente expostas. Ainda assim, as crónicas revelam uma sociedade capaz de registar e transmitir a memória da catástrofe, contribuindo para a compreensão moderna da sismicidade na Península Ibérica.

Mais de seis séculos depois, o sismo de Lisboa de 1356 continua a ser um dos grandes episódios sísmicos da história portuguesa. A sua análise recorda que o risco sísmico na região atlântica permanece real e que a história de Lisboa está profundamente marcada por abalos que, periodicamente, transformaram a cidade e a sua paisagem urbana.

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